Em algum momento entre 2024 e 2025, criar software deixou de exigir conhecimento de programação. Não para todos os casos — mas para uma faixa enorme de problemas reais que as pessoas enfrentam todo dia.
Vibe Coding é o nome que ficou para essa prática: usar modelos de linguagem como co-piloto de desenvolvimento, descrevendo em linguagem natural o que você quer construir e iterando até chegar onde precisa. Sem sintaxe. Sem stack. Sem curva de aprendizado de anos.
Antes de continuar: não estou dizendo que programar virou irrelevante. Estou dizendo que a barreira de entrada para criar coisas funcionais caiu de um jeito que não tem volta.
O que é Vibe Coding — e por que o nome importa
O termo foi cunhado por Andrej Karpathy — ex-diretor de IA da Tesla e um dos fundadores da OpenAI — em fevereiro de 2025. A ideia central é simples: em vez de escrever código, você descreve a vibe do que quer construir, e o modelo escreve o código por você.
O nome importa porque captura algo real sobre como essa prática funciona na prática. Você não está especificando comportamento técnico. Você está comunicando intenção, contexto e resultado esperado — e deixando a IA resolver os detalhes de implementação.
A mudança de paradigma
Antes, para criar algo, você precisava aprender a linguagem da máquina. Agora, você pode usar a sua própria linguagem — e a máquina aprende a traduzir. Isso não é hype: é uma mudança de paradigma com consequências práticas imediatas.
O erro que a maioria comete
O erro mais comum de quem tenta Vibe Coding pela primeira vez é tratar a ferramenta como uma máquina de busca: pede uma coisa, recebe um resultado, fecha e considera feito.
Vibe Coding funciona por iteração. O primeiro resultado quase nunca é o final. A prática está em descrever com clareza o que está errado, o que falta, o que deve mudar — e continuar o ciclo até chegar onde precisa.
Isso significa que a habilidade que mais importa não é programar. É saber descrever o que você quer com precisão suficiente para a IA entender e executar.
Três perguntas que ajudam a formular qualquer prompt de Vibe Coding:
- O que é isso? — qual tipo de aplicação, ferramenta ou automação você está construindo
- Para quem é? — quem vai usar, qual o contexto de uso
- Como deve se comportar? — quais são os estados, as interações, as regras
Duas ferramentas para começar hoje
Lovable — para criar aplicações web completas
O Lovable é a ferramenta mais próxima do que o Vibe Coding promete na sua forma mais completa. Você descreve o que quer construir em linguagem natural, e ele gera uma aplicação web funcional — com interface, banco de dados, autenticação e lógica de negócio.
O resultado é um app real, hospedado, com URL própria. Não um protótipo estático. Não um mockup. Uma aplicação que funciona.
Casos de uso onde o Lovable brilha: landing pages, dashboards internos, formulários com lógica, ferramentas de coleta de dados, sistemas de agendamento simples, portfólios.
Google AI Studio — para automações e scripts
O Google AI Studio tem um uso menos óbvio mas igualmente poderoso: gerar scripts de automação para Google Workspace (Sheets, Docs, Gmail, Forms) usando linguagem natural.
Se você já quis automatizar algo no Google Sheets mas não sabe escrever Apps Script, o AI Studio resolve. Você descreve a automação, ele gera o código, você cola na planilha e roda.
Na prática: como escrevi o prompt que criou minha landing page
Vou compartilhar o prompt exato que usei para criar a primeira versão da landing page da TBA no Lovable. Não é o prompt final — é o prompt de partida. A versão que existia depois de 20 minutos de iteração ficou razoavelmente distante disso, mas o ponto de partida define o caminho.
✅ Prompt para landing page (Lovable)
Crie uma landing page para a TBA — Technology Business Academy, uma edtech
brasileira de cursos de IA e tecnologia para profissionais.
Público-alvo: profissionais de 25 a 50 anos que querem aprender IA aplicada
ao trabalho. Não são programadores, mas usam tecnologia no dia a dia.
A página deve ter:
1. Hero com headline impactante sobre aprender IA de forma prática
2. Seção de benefícios em 3 colunas (prático, atualizado, com comunidade)
3. Seção de cursos em destaque (3 cards: Machine Learning, Prompts Avançados,
IA para Gestores)
4. Depoimentos de alunos (3 cards com foto placeholder, nome e cargo)
5. CTA final com formulário de captura de e-mail
6. Rodapé simples
Estilo: moderno, sóbrio, preto e laranja (#FF5A1F). Tipografia grande.
Sem imagens reais — usar placeholders com fundo gradiente.
Layout desktop-first mas responsivo.
Não use bibliotecas externas pesadas. React + Tailwind CSS é ok.
Repare nos elementos que fazem esse prompt funcionar: contexto da empresa, descrição do público-alvo, lista explícita de seções, diretrizes de estilo e restrições técnicas. Cada um desses elementos reduz a ambiguidade e aumenta a chance de o primeiro resultado já estar na direção certa.
Prompts para testar nas duas ferramentas
Além do prompt de landing page, aqui estão dois outros que funcionam bem para quem está começando:
✅ Prompt para landing page de ebook (Lovable — template adaptável)
Crie uma landing page para lançamento de um ebook chamado "[título do ebook]".
O ebook é sobre [tema] e é voltado para [público-alvo].
A página deve ter:
1. Hero com capa do ebook (use um placeholder escuro com o título em branco)
2. "O que você vai aprender" — 4 a 6 bullet points com os capítulos principais
3. Sobre o autor — foto placeholder, nome, 2 linhas de bio
4. Formulário de captura: nome, e-mail, botão "Quero o ebook grátis"
5. Prova social: "Mais de X pessoas já baixaram" com avatares placeholder
Estilo: [descreva a identidade visual que você quer]
Sem backend — o formulário pode só mostrar uma mensagem de "obrigado" ao enviar.
✅ Prompt para automação no Google Sheets (Google AI Studio)
Escreva um script em Google Apps Script para a seguinte automação no Sheets:
Contexto: tenho uma planilha de controle de tarefas com as colunas:
A = Tarefa, B = Responsável, C = Data de Entrega, D = Status
Automação desejada:
1. Todo dia às 8h, enviar um e-mail para o responsável de cada tarefa
com status "Em andamento" que vence nos próximos 2 dias
2. O e-mail deve listar as tarefas do responsável com data e tarefa
3. Assunto do e-mail: "Lembrete: tarefas vencendo em breve"
Me dá o código completo e as instruções para instalar o trigger.
O que Vibe Coding não resolve
Honestidade importa aqui. Há coisas que Vibe Coding ainda não faz bem — e é importante saber antes de depender da abordagem para algo crítico.
- Sistemas complexos com múltiplas integrações — quanto mais partes móveis, mais difícil manter a coerência entre iterações
- Performance em escala — o código gerado geralmente funciona, mas não foi otimizado para milhares de usuários simultâneos
- Segurança em aplicações que lidam com dados sensíveis — validação, autenticação e proteção de dados exigem revisão humana especializada
- Manutenção de longo prazo — código gerado que ninguém entende vira dívida técnica rápido
O Vibe Coding é uma ferramenta extraordinária para prototipagem, automação pessoal e criação de ferramentas internas de baixo risco. Para produtos que precisam de confiabilidade e escala, ainda é necessário alguém que entenda o código que está rodando em produção.
A pergunta que fica
No começo de cada turma que inicio na TBA, faço uma pergunta: "Quantos de vocês já tiveram uma ideia de ferramenta, automação ou sistema que precisavam — mas não construíram porque não sabiam programar?"
A maioria levanta a mão.
Depois de apresentar o Vibe Coding, faço outra: "E quantos vão continuar usando essa desculpa a partir de hoje?"
A barreira para criar coisas com tecnologia nunca foi técnica. Sempre foi de crença — a crença de que criar software é para programadores, que aprender leva anos, que você não tem o perfil certo. O Vibe Coding não eliminou a complexidade da engenharia de software. Mas eliminou a ideia de que você precisa dominar essa complexidade para criar coisas que funcionam e resolvem problemas reais.
A pergunta que fica não é "você vai aprender a programar?". É: "Qual é a primeira ferramenta ou automação que você vai criar essa semana?"
Jefferson Barbosa, Ph.D.
Jefferson é fundador da TBA e escreve sobre ferramentas de IA aplicadas ao trabalho profissional. Publica semanalmente na newsletter Jefferson's Substack sobre Lovable, Google AI Studio, engenharia de prompts e o impacto da IA no mercado de trabalho.